Domingo, Agosto 30, 2009

Carta de amor que teima em não amarelar

Acho que estamos partindo. Indo embora, entende? Sinto isso. Alguma vez você já pediu pra alguém ficar na tua vida? Eu já. Não funciona. Barco furado. Então desaprendi. E não sei se essa capacidade me será algum dia restituída. Nem sei se ao perdê-la me tenha sido levada também a alternativa de ter-te por perto. Mas já não me constrange a possibilidade do desencontro. Quando tinha 17 anos acreditava que na vida a gente vai agregando agregando agregando e hoje, anos depois, me parece muito mais um universo de trocas. Estamos irremediavelmente sós. SOS. É uma constatação. E já nem é triste.
Com que boca pedir para que alguém fique se o encanto é ver o desenho que os passos livres descrevem em nossas vidas e em nossos corpos? E na minha ciranda as pessoas decidem entrar e sair, por mais que isso me doa. Por mais que vendo-o dormir deseje baixinho que não partas e não me deixes partir.

Além do mais, escolher conhecer alguma coisa é, antes de escolher conhecer uma coisa naquele momento, é escolher não conhecer uma infinidade de outras naquele mesmo instante. Já achei que fosse cegueira, não acho mais. Pode ser até que este pensamento tenha crescido por uma vontade própria de justificar minha vergonha por desconhecer tanta coisa que gostaria de ter escolhido há 10 anos - como piano, por exemplo. Ah!, mas só eu conheço o pôr-do-sol da penúltima terça-feira visto bem do centro da pedra mais alta do Arpoador. Assim como conheço tantas outras coisas que você não conhece por ter, talvez, escolhido conhecer as coisas que eu queria ter conhecido quando era criança e só começo a me aproximar agora.
Isso não é uma despedida. Tento aqui sublinhar o meu não-desejo de propriedade, só vale se forem vontades confluentes. Creio que ninguém ganha e ninguém perde se nossas mãos resolverem alcançar outras cirandas, outras canções. Somos livres. Não será a primeira, nem a última vez. Disso estou certa. E não há lugar para rancor. Poderás olhar para trás quantas vezes quiseres, sabendo que a volta também é um caminho novo - não espere o mesmo trajeto da ida. Terei sempre olhos brilhantes pra ti e orgulho por termos nos escolhido em algum momento. Só não posso esperar por você nem por ninguém. Te desejo sempre uma boa viagem. Pra qualquer lugar.

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

querendo encontrar o tato
as estribeiras
a linha
e o fio da meada
pra mais uma vez me perder

Sábado, Julho 04, 2009

meu amor
quando não houver mais verdade e
a boca já estiver seca e
da mão, só sobrar o talo e
de mim só sobrar você
vou escolher outra vida

Terça-feira, Junho 30, 2009

doeucomoele

eu linda
tu bonitinhas
ele BONITO
nós deliciosamente BONITOS
vós queridos
eles Quem?

Domingo, Junho 21, 2009

Mar

grande nadadora que sou
recolho minha insignificância
quadrada
bunda enterrada na areia quente
duma praia que absolutamente não reconheço
como não reconheceria a perna mecânica do Roberto Carlos
ou você
se me aparecesse assim
meio assim assim
não o reconheço
somente marolinhas no mar
marolindas
como um beijo azedo
esperando o beijo bom

Sexta-feira, Junho 19, 2009

dia de folga

corri para ver o pôr-do-sol que
desabou feito chuva sobre os meus cabelos
pés que me servem para correr ao encontro do mar
e da lama podre das calçadas de Copacabana
penso muito
das duas, uma
gostoso mesmo é me encontrar sozinha no meio de tanta gente
feliz quem tem algo com que se ocupar

Segunda-feira, Novembro 03, 2008

agorinha nesse instante

Falar sobre ele é falar sobre a fome. Sobre encontro. Sobre escolha. Sobre deliciar-se pelo caminho sem pressa de chegar.
É falar sobre mim.
Sobre o meu sincericídio.
Eu, que vasculho a calma aos 22 anos.
E minha agonia chata que acompanha toda vontade de quem tem fome e pouca delicadeza para comer pelas beiradas. Digo adeus à febre que acompanha o vício, para o calor do homem que escolheu ser meu.
E sei que nada mata a fome de uma vida inteira.
E acho que nunca estive tão feliz.

Terça-feira, Junho 03, 2008

Domingo, Março 09, 2008

about me

atriz não
atriz também

Segunda-feira, Março 03, 2008

Queixume

Eu tento entender meu fascínio pelas palavras. Tenho o hábito, muitas vezes cruel, de colecionar bilhetes, e-mails, torpedos (Torpedos sim!). Acho importante guardar algumas palavras, pois a réplica pode vir com o tempo. Na maioria das vezes ela é tão tardia que já nem vale passar adiante, mas guardo-a. Inutilizada. Sempre ao reler minhas cartas eu tenho a sensação de estar mais próxima do sentido que alguém quis dar ao escrever. É como se algumas coisas só fizessem sentido com a maturidade. É como se faltasse o programa para abrir o arquivo, eu guardo todos os escritos na esperança de torná-los palatáveis um dia.
Pelo mesmo propósito escrevo para alguém sempre que acho que a mudança de rumo é significativa ou o desejo de mudança vale o risco de ficar para sempre refém do que se pensou. A carta é um documento valiosíssimo. São poucas as pessoas que me instigaram a escrever cartas e a maioria delas nem suspeitou do meu intuito ao escrevê-las. Mas a carta é uma proposta para a eternidade.
Existe, porém, um grande problema nos amantes da palavra e da boa literatura. Pelo menos nos que encontrei. É tanto tempo nos acabamentos de uma história que ela não encontra espaço para acontecer fora da mente. É bom ter alguém pra fazer do teu flerte um belo romance, mas é complicado se tornar apenas uma personagem à mercê do autor. Só fazem conosco aquilo que de certa forma permitimos. Quero pensar assim.
Há de haver um equilíbrio. Literatura ao pé do ouvido enlouquece e muito. Mas o que se faz a partir disso que é a mais torpe poesia. Mais que qualquer romance ideal não vivido. Mais que um pedido de desculpas por um momento ausente. Mais que uma declaração de amor gasta. Mais que a covardia sacana de olhares pedintes no meio da multidão. Quanto riso, oh, quanta alegria.
Tenho tido preguiça para amores literários cheios de pronomes possessivos. Pra que tudo isso se no fim ninguém pertence a ninguém? E quem se guarda pra quando o Carnaval chegar se perde no bloco. É foda carregar alguém que programa a vida como a dieta adiada pra segunda. E para uma dose rápida de vida, dá-lhe dieta da proteína no Carnaval. Opa, viva a festa da carne! E depois tudo volta ao normal. Todo um excesso rococó de finalidade duvidosa.
Por essa e por outras que fico muito indignada comigo sempre que vacilo entre um bom amante e um bom escritor. Vai ter tesão pelas palavras assim na casa do inferno.